Matéria Especial: Esporte sem acessibilidade

Esta matéria foi publicada no jornal Correio da Paraíba e contou com a participação de Júlio Fernandes e Larissa Santos, do Blog Paraíba sem Barreiras.

Domingo, 28 de outubro de 2012

Por Allan Hebert

De acordo com a Lei de Acessibilidade – Decreto lei 5296, de 2 de dezembro de 2004, toda edificação de uso público, seja ela gerenciada por entidades da administração pública, direta e indireta, ou por empresas prestadoras de serviços públicos ou destinadas ao público em geral, devem se enquadrar as normas de acessibilidade para pessoas com qualquer tipo de deficiência.

Porém, estas regras previstas em lei não são vistas nos principais equipamentos esportivos da cidade de João Pessoa. São muitos os obstáculos que pessoas com deficiência, seja ela física, visual ou auditiva, enfrentam para ter acesso às principais praças esportivas da Capital.

A reportagem do Correio da Paraíba visitou o Estádio Almeidão, o Ginásio Ronaldão e a Vila Olímpica Ronaldo Marinho, antigo Dede e encontrou vários problemas de acessibilidade nos locais. Para analisar estas dificuldades enfrentadas pelos deficientes convidamos os Mestres em Ergonomia pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Júlio Fernandes e Larissa Santos. Ambos são especialistas nestas questões de acessibilidade.

Vila Olímpica

O primeiro local visitado foi a Vila Olímpica Ronaldo Marinho. Ao chegar ao equipamento, já ficam nítidas as sérias dificuldades que pessoas com deficiência têm para acessar as dependências do lugar. Logo na entrada, faltam rampas para que os cadeirantes adentrem ao Dede, o piso é inadequado tanto para os deficientes físicos como para os visuais, faltam pisos táteis que facilitam a localização para pessoas sem visão.

No Dede, os maiores problemas são encontrados no ginásio de esportes. A começar pela entrada. A única rampa de acesso à calçada do local está fora dos padrões exigidos e ainda está muito distante da entrada da quadra, causando incomodo para pessoas com dificuldade de locomoção. Mas, as principais irregularidades estão dentro do ginásio.

As rampas de acesso estão desniveladas, existem barreiras suspensas que podem causar acidentes para os deficientes visuais, os banheiros são totalmente inadequados para deficientes físicos. E, para piorar, não existe qualquer tipo de acesso a quadra para cadeirantes no local dedicado à prática de esportes. Para entrarem na quadra, os deficientes físicos precisam da ajuda de outras pessoas para atravessarem os degraus da arquibancada.

“O Dede está num estado bem crítico, tem muita coisa a melhorar, mas uma reforma resolveria boa parte dos problemas. Nesta reforma teria que dar um destaque nos acessos ao ginásio e ao próprio local, também seria necessário uma troca de piso no estacionamento e na entrada. Além disso, tem os problemas estruturais nos banheiros, falta de corrimãos nas rampas de acesso ao ginásio e outras melhorias. No geral a situação é bem crítica”, avaliou Larissa Santos.

Para Júlio Fernandes, das praças esportivas visitadas a Vila Olímpica é o mais precária. “O Dede é o equipamento que se encontra na pior situação para uma pessoa deficiente. Tanto pela calçada, do acesso ao ginásio, ao acesso à quadra de jogo, situação dos banheiros. Por tudo isso, considero que o Dede está na pior situação”, opinou.

Treino na Vila é sofrido

O time de basquete em cadeira de rodas da Associação Atlética dos Portadores de Deficiência da Paraíba (AAPD/PB) enfrenta dificuldades diárias para conseguir realizar seus treinamentos. Como não existe um local exclusivamente para eles, a equipe necessita utilizar a quadra da Vila Olímpica Ronaldo Marinho para conduzir seus treinos. No entanto, o ginásio do local apresenta vários problemas de acessibilidade.

Segundo o jogador Will Oliveira, o acesso à quadra é o principal problema do equipamento. A entrada no ginásio é bastante complicada, principalmente para se ter acesso à quadra para treinar. Como não existe nenhum acesso direto, nós precisamos de ajuda de duas pessoas para conseguirmos entrar na quadra para realizar nossos treinamentos. Este é realmente nosso principal obstáculo no Dede”, disse Will Oliveira.

Apesar dos problemas enfrentados, a equipe de basquete da AAPD/PB vem conseguindo trazer grandes resultados para o Estado. No mês passado, ao vencer a divisão de acesso nacional, o time conquistou o direito de disputar a 1ª divisão do Brasileirão de Basquete em Cadeira de Rodas, que será realizado no mês de dezembro, em Belém (PA).

Almeidão tem problemas tanto dentro como fora

O entorno do Estádio Almeidão é o principal problema do local. A Falta pavimentação no estacionamento da praça esportiva dificulta bastante o acesso de deficientes. Além disso, à distância das paradas de ônibus para a entrada do estádio é muito grande, dificultando a locomoção de deficientes que não forem ao local de carro. Dentro do estádio as falhas se repetem. Banheiros inadequados, inclusive, alguns deles com um enorme batente que impossibilita um cadeirante de usá-lo.

Outra falha importante no Almeidão são os espaços disponíveis aos deficientes físicos. O estádio, que pode receber um público de mais de 20 mil pessoas, disponibiliza um espaço insignificante para eles. O local disponível abriga no máximo oito cadeirantes. Além disso, este ambiente mínimo tem que ser dividido entre torcedores do clube mandante e visitante.

“No Almeidão os principais problemas são na área externa do estádio. O acesso e o entorno dificultam bastante a presença de deficientes. Às paradas de ônibus são distantes, o estacionamento impossibilita uma boa circulação tanto de deficientes visuais, como físicos.”, analisou Larissa Santos.

Segundo Julio Fernandes e Larissa Santos, especialistas que fizeram uma vistoria nas praças esportivas, de um modo geral, os principais equipamentos esportivos de João Pessoa estão bem abaixo do ideal para receber pessoas com qualquer tipo de deficiência.

Ronaldão é o “melhor” dos visitados pelo Correio

Assim como na Vila Olímpica e o Estádio Almeidão, o Ginásio Ronaldão tem sérios problemas ao seu entorno. Principalmente pela falta de guias rebaixadas na calçada. A única rampa que existe, já na entrada do equipamento está fora dos padrões. Além disso, os banheiros também estão totalmente fora dos moldes adequados. As portas e pias não estão na largura e altura necessárias, não existe um sanitário próprio para cadeirantes, além de outros problemas.

Mesmo com tantas falhas, o Ronaldão tem seus aspectos positivos. No local, existe um espaço na arquibancada exclusivo para cadeirantes, e, apesar de estar um pouco fora do padrão, o ginásio conta com uma rampa que dar acesso à quadra para que os deficientes possam praticar esportes no ginásio, diferentemente do Dede, que não existe um acesso à quadra.

“Apesar dos problemas de acesso na entrada do ginásio, acho que o Ronaldo é o melhor dos três equipamentos visitados. Lá tem o acesso à quadra e as arquibancadas, só que os deficientes precisam de ajuda, mas ao menos ele existe. Então, até pelo estado de conservação, o Ronaldão é o menos precário de todos eles”, disse Larissa Santos.

Soluções do governo à vista

Cientes dos problemas estruturais nos equipamentos esportivos, o Governo do Estado anunciou no mês de agosto uma série de reformas que serão feitas nas principais praças esportivas da Paraíba. Ao todo, serão investidos mais de R$ 38 milhões para o melhoramento do Estádio Almeidão, Ginásio Ronaldão, Vila Olímpica Ronaldo Marinho, além de outros equipamentos do Estado.

Segundo Ricardo Barbosa, responsável pela Superintendência de Obras do Plano de Desenvolvimento do Estado (Suplan) – órgão que será responsável execução das obras nos equipamentos esportivos, todos os problemas estruturais e de acessibilidade presentes nestas praças serão resolvidos para adequar às necessidades dos deficientes que frequentam os locais.

“Nós vamos resolver os problemas em todos estes equipamentos citados. Serão muitas melhorias feitas para modernizar nossos estádios e ginásios. O Governo do Estado vai investir mais de R$ 38 milhões para adequar nossos principais equipamentos esportivos. Inclusive, as ordens de serviço para o início das obras devem sair até o final do ano”, disse o superintendente da Suplan.

Só para a reforma das três praças esportivas visitadas pela reportagem do Correio da Paraíba foram disponibilizados mais de R$ 32 milhões. Agora, é esperar a conclusão das obras para que nossos deficientes tenham a possibilidade de uma maior inclusão social através do esporte.

PB sem Barreiras

Bastante envolvidos nesta temática de acessibilidade para pessoas com deficiência, os sócios Júlio Fernandes e Larissa Santos criaram o blog pbsembarreiras.com. O blog foi criado para fazer este trabalho de conscientização dos direitos de acessibilidade dos deficientes.

“No blog nós fazemos um trabalho de conscientização bem semelhante ao que fizemos ao avaliar os equipamentos esportivos. Nós vamos a um determinado local, fazemos uma vistoria e depois, no blog, fazemos uma matéria sobre o local dizendo o que está errado e recomendando o que precisa ser melhorado para um melhor acesso de pessoas com deficiência”, disse Larissa Santos.

Além disso, no blog você pode dar sugestões, compartilhar histórias sobre pessoas que enfrentam problemas de acessibilidade e ainda encontrar outros blogs que tratam do assunto.

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