Fábia Halana, paralisia cerebral e acessibilidade

Olá! Depois de um tempo nos dedicando apenas às atividades acadêmicas, finalmente, podemos retomar as atividades do Blog. Durante esse período continuamos recebendo os textos, flagras e histórias de vocês, pelos quais agradecemos muito. A partilha é muito importante para alcançarmos boas discussões e nosso grande objetivo de “divulgar” a acessibilidade. E, para retornarmos, vamos conhecer um pouco da visão de quem realmente vive a cidade e suas dificuldades pela falta de acessibilidade.

Fábia Halana Pita tem 21 anos, é graduanda de Serviço Social pela Universidade Federal da Paraíba, dançarina, estagiária da Fundação Centro Integrado de Apoio à Pessoa com Deficiência (FUNAD) e possui paralisia cerebral.

PBsembarreiras: Qual a causa da sua deficiência?

Fábia: Na verdade, não tem uma causa certa para minha deficiência, pois nasci “normal”. Aos 4 meses houve uma regressão no meu quadro motor e cognitivo. Então começou uma bateria de exames e consultas médicas. Fui a alguns especialistas e a hipótese mais aceita é que tudo isso foi decorrente da vacina BCG que tomei na fase inicial da vida.

PBsembarreiras: Quais tecnologias assistivas você utiliza para realizar suas atividades?

Fábia: Utilizo na minha vida diária um andador para me locomover e algumas barras de apoio em casa.

PBsembarreiras: A sua deficiência se tornou barreira ou motivação para a busca da sua formação superior?

Fábia: Uma motivação. Apesar das dificuldades do dia-a-dia, sempre quis batalhar pelos meus objetivos, provar pra mim mesmo que era possível ir além das barreiras impostas pela sociedade, e assim, no futuro colaborar para melhorar a vida das outras pessoas. Procurei um curso que fosse de acordo com as minhas possibilidades e que pudesse trabalhar na luta das pessoas com deficiência. Isso tudo é fruto do apoio da minha família e amigos que são essenciais na vida pessoal e na futura carreira profissional.

PBsembarreiras: Existem dificuldades que você encontrou durante sua formação escolar e encontra até hoje na superior ou no trabalho?

Fábia: Com certeza. No início, foi difícil encontrar uma escola que me aceitasse. Disseram que não estavam apropriadas para receber uma pessoa com deficiência e não tinham profissionais para lidar com esse segmento populacional. Até que encontrei uma escola e permaneci lá até a 6ª série, depois estudei em duas outras escolas. Nesse período riquíssimo da minha vida, pois estava começando a conhecer o mundo ao meu redor, tive lidar com o preconceito de alguns colegas, de lutar por adaptações físicas na escola e formar minha personalidade. Hoje no ensino superior não encontro tanta dificuldade nas relações com as pessoas, só às vezes um ou outro que tem preconceito, existem mais problemas na acessibilidade da universidade mesmo. Por exemplo: calçadas desgastadas, pisos irregulares, escadas, faltas de rampas, local das salas de aula mais próximas, local de desembarque de carros.

PBsembarreirasQuais as principais dificuldades que as edificações lhe impõem? 

Fábia: As principais dificuldades são: degraus, pisos irregulares, falta de elevadores e rampas, banheiros sem adaptações, distâncias grandes, tamanho das bancadas para informações, alguns desníveis, corredores estreitos, a falta de algumas barras de apoio.

PBsembarreiras: Existe algum lugar que você evita ir por não ter acessibilidade? Qual?

Fábia: Sim. Alguns prédios na parte antiga de João Pessoa, como por exemplo, o Casarão de Azulejos, Hotel Globo, alguns locais dos shows na praia, alguns restaurantes, mercadinhos, Parque Arruda Câmara, alguns lugares que não têm estacionamentos.

PBsembarreiras: Em João Pessoa, quais locais você poderia citar como “exemplo” em acessibilidade?

Fábia: A Estação Ciência (onde já fomos verificar duas vezes: 1 e 2), alguns trechos da “Calçadinha” na Praia de Cabo Branco, o Mag Shopping, Espaço Energisa.

PBsembarreiras: O que você acha mais difícil para manter uma vida ativa?

Fábia: As barreiras presentes na cidade. Muitas vezes tenho vontade, mas quando lembro que tem que enfrentar escadas, ou depender da boa vontade das outras pessoas em me ajudar, então às vezes desisto.

PBsembarreiras: Gostaria de fazer algum outro comentário que considera importante?

Fábia: Seria importante a elaboração e execução de um plano de acessibilidade em João Pessoa para que as pessoas com deficiência, as que têm mobilidade reduzida e até a população em geral se locomova de uma melhor forma pela cidade. Que não haja tanta exposição das pessoas para pedir ajuda aos outros e que acima de tudo haja o respeito às diferenças. Afinal, ser “diferente” não é sinônimo de coisa desagradável. Simplesmente nos é dado um modo distinto de encarar a vida.

Twitter: @fabiahalana

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8 respostas em “Fábia Halana, paralisia cerebral e acessibilidade

  1. É verdade, Julia.
    Fábia, estás de parabéns, nem vou repetir que você escreveu muito bem, hehehe. Muito bom ver pessoas que não desistem porque a sociedade tenta limitar, sua família foi muito feliz em não desistir da sua educação e você mais ainda por buscar sua formação, ainda mais procurando algo que possa ajudar outras pessoas com deficiência.
    Agradecemos sua participação e conte sempre com a gente nessa luta
    Beijos

  2. Olá! Fábia, É fundamental desenvolver ações que contribuam na conscientização e sensibilização dos profissionais da sociedade em geral para a necessidade de termos uma cidade acessível.
    Passagem de rampas para cadeirantes obstruídas pelo estacionamento de veículos e motocicletas, calçadas sem infraestrutura e despadronizadas, além de objetos instalados no meio da calçada como orelhões, lixeiras e pontos de propagandas são algumas dificuldades enfrentadas pelas pessoas com deficiência ou mobilidade reduzida para trafegar por ruas de João Pessoa.
    Apesar de existir rampas de acesso na rua Almirante Barroso, nas proximidades da Lagoa do Parque Sólon de Lucena, no centro da capital, em alguns pontos, a passagem fica fechada pelo estacionamento de veículos e motocicletas. O problema ocorre principalmente na frente de estabelecimentos comerciais. Ainda nessa via, todo o trecho apresenta desníveis no calçamento, ou seja, partes altas e baixas. Por outro lado, mesmo diante de tantos obstáculos, existe a iniciativa ao lazer, esporte, arte e cultura, por meio do projeto acesso cidadão, mostra que algo vem sendo feito, isso é mais oportunidade de acesso a atividades artístico-culturais e esportivas em João Pessoa. Não tenho um conhecimento maior desse projeto, mas as coisas tem que ser construída de maneira acelerada, visto que é necessário para que tenhamos condições e oportunidades igualitárias.
    Abraços. Roseane

  3. Fábia é uma pessoa maravilhosa, um verdadeiro exemplo de força, dedicação e superação! Extremamente inteligente, uma grande filósofa apesar da pouca idade… tenho a honra e felicidade de conviver com ela e participar um pouco da sua vida, como amigo e terapeuta… excelente entrevista, é uma luta longa e diária, q requer sensibilidade, conscientização e EDUCAÇÃO da sociedade civil e respectivos administradores! Parabéns ao “Paraíba sem Barreiras”!

  4. Fábia, seus tios (Reinaldo, Getúlio, Mary, Alicinha) e seus primos (Glauco, Mateus, Raissa e Laís) te adoramos muito e desejamos que seu futuro seja abençoado, brilhante e que tenha muitas conquistas!!! Que Deus lhe dê muita força para você superar todas as suas dificuldades e poder contribuir para que as pessoas enfrentem suas deficiências para poder termos um Brasil com mais acessibilidade e sem preconceito entre as pessoas.

    Te amamos muito e conte sempre conosco!!!

  5. Meu nome é Rosemary e sou colega de Fábia no curso de Serviço Social. Admiro sua enorme capacidade e reconheço as dificuldades apresentadas em sua rotina diária. Dentro da Universidade, que apresenta-se como “espaço inclusivo”, ocorre uma luta de Fábia por melhorias na acessibilidade, pelo direito de um banheiro corretamente adaptado, vagas para deficientes as quais deveriam ter seu uso respeitado, acesso facilitado à Reitoria e a `Biblioteca Central, as quais não são adaptadas para esses usuários. Força Fábia, a vida é uma luta diária, mas você consegue.

  6. Sabe o que me deixa mais feliz??? É que, sempre que eu vejo Fabinha (frequentamos a mesma Igreja, onde ela arrasa no Ministério de Dança Chama de Amor), ela está com um sorriso lindo no rosto, é sempre uma simpatia! Eu a admiro demais, e queria ter sempre esse sorriso em meu rosto também! Ela é um exemplo pra mim e pro meu noivo Thyago!

    Te admiramos demais Fabinha. Deus continue te abençoando e te iluminado. Você é uma Bênção de Deus nesse mundo!!!!

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