Acessibilidade em: Estação Cabo Branco – Ciência, cultura e artes

Fizemos uma visita no dia 20 de julho à Estação Ciência, com é conhecida, em João Pessoa – PB e vamos mostrar uma análise feita com base na NBR 9050, normas afins e boas práticas que promovem a acessibilidade. Localizada na capital paraibana, próximo ao farol do Cabo Branco, a Estação Ciência – local de lazer, eventos culturais e exposições – foi inaugurada no ano de 2008. Com autoria do arquiteto Oscar Niemeyer, o projeto concentra uma área construída superior a 8.571 metros quadrados. Financiada pelo Ministério da Ciência e Tecnologia, estima-se que o valor da obra superou os 33 milhões de reais. Horário de Funcionamento: Terça a sexta-feira: 9h às 21h. Sábados e Domingos: 10h às 21h.

Informações sobre os diferentes setores existentes na Estação Ciência:

Fonte: Bom Guia

Calçadas e Acesso

As calçadas e áreas de acesso ao local permitem uma boa locomoção, não apresentam obstrução ou interferência na faixa livre e nenhum obstáculo aéreo, diminuindo os riscos de eventuais acidentes com deficientes visuais. Com faixa livre superior a 1,20m, piso antiderrapante e contínuo, sem ressaltos ou depressões, a calçada possibilita a circulação com segurança de cadeirantes, carrinhos de bebê e mulheres de salto. A calçada possui, ainda, área permeável, facilitando a drenagem pluvial.  Sentimos falta do piso tátil direcional ou alguma guia de balizamento para que pessoas com deficiência visual possam identificar o percurso. Esse recurso merece mais atenção dos órgãos responsáveis, pois ainda encontramos poucas calçadas com piso tátil na cidade.

Na entrada principal, a calçada está rebaixada para a travessia de pedestres, porém, neste tipo de rebaixamento deve ser garantida uma faixa livre no passeio (recomendável 1,20 m) além do espaço ocupado pelo rebaixamento, de no mínimo 0,80 m. A guia rebaixada deve ser sinalizada com piso tátil de alerta em cor contrastante com a do piso. Além disso, no término do rebaixamento há um desnível que pode ser evitado.

Rampas de Entrada

A largura das rampas atende ao fluxo de pessoas, sendo a principal com largura superior a 1,50 m e a rampa de acesso do estacionamento atendendo o mínimo admissível de 1,20 m. Existe sinalização tátil de alerta, cromodiferenciada ao piso adjacente, devidamente afastada do início da rampa, porém há piso tátil nos patamares, o que não é recomendado já que estão dando continuidade à estrutura e não finalizando.

Não existem guias de balizamento nas rampas, requisitadas quando não há paredes laterais, devendo ter altura mínima de 0,05 m e ser construídas na projeção dos corrimãos ou guarda-corpos. Essa estrutura facilita o deslocamento de pessoas com deficiência visual que utilizam a bengala de rastreamento. As rampas e seus patamares possuem piso revestido com material antiderrapante, estável e regular. A terceira foto foi tirada após a chuva, mesmo assim ela continuou oferecendo segurança.

Os corrimãos estão instalados em ambos os lados e suas extremidades têm acabamento recurvado, desenho contínuo, sem protuberâncias e prolongam-se pelo menos 30 cm antes do início e após o término da rampa, sem interferir com áreas de circulação. Esse tipo de cuidado evita que a bolsa ou a roupa prendam nesses locais, muitas vezes causando acidentes desagradáveis.

Estacionamento

O estacionamento interno possui vagas exclusivas para pessoas com deficiência. Na primeira foto, observamos que as vagas não possuem sinalização vertical, apenas a horizontal. Estas vagas não contam com espaço adicional de circulação (de no mínimo 1,20 m de largura) e não estão localizadas de forma a evitar a circulação entre veículos, pois estão distribuídas aos pares pelo local, devendo ser todas concentradas próximas à rota acessível. O revestimento do estacionamento (blocos intertravados) garante o bom rolamento sem trepidação de cadeira de rodas, além de ser antiderrapante. A segunda imagem mostra uma situação proposta para o local que é suficiente para um espaço de circulação a cada vaga, porém o espaço central pode ser compartilhado por duas vagas.

Anfiteatro

Local de shows e eventos culturais, o anfiteatro disponibiliza áeras exclusivas para o cadeirante na fileira mais alta, entre a arquibancada e próximas ao palco. Essa prática permite que pessoas com deficiência assistam aos espetáculos acompanhadas por amigos e familiares. O símbolo que utilizado para a demarcação da área exclusiva foi personalizado, devendo ser utilizado segundo imagem 3 abaixo.

O percurso até o anfiteatro, assim como acontece durante todo o passeio da área externa, não possui piso tátil direcional ou qualquer guia de balizamento onde uma pessoa com deficiência visual possa utilizar para orientar-se e deslocar-se utilizando sua bengala de ratreamento. Como os espaços são amplos e sem paredes laterais, a locomoção é dificultada pela ausência destes elementos. Fizemos uma proposta para colocação de piso tátil que também direciona a um mapa tátil com informações visuais, táteis e sonoras do local.

Na escada de acesso à arquibancada o piso tátil de alerta está instalado incorretamente, pois não existe o afastamento antes do início da escada (máximo 0,32 m), ocasionando risco de segurança. O corrimão, ao contrário dos presentes nas rampas, não possui duas alturas, suas extremidades não têm desenho contínuo, nem são fixadas ou justapostas à parede. Os degraus não possuem sinalização visual na borda do piso, em cor contrastante com a do acabamento,  o que diminui a percepção dos degraus por pessoas com baixa visão.

Rampa e escada de acesso aos pavimentos superiores

A  foto apresenta um caminho auxiliar de acesso aos pavimentos superiores da edicação principal (Torre/mirante). O piso de eco-bloco torna a superfície instável e irregular, o que provoca trepidação em cadeiras de rodas e carrinhos de bebês. Nota-se também a ausência de uma guia de balizamento e corrimão, este último facilitaria o deslocamento de pessoas com mobilidade reduzida, já que o caminho é longo e não há nenhum banco para descanso.

As duas imagens abaixo mostram o espiral externo que dá acesso aos pisos superiores. Há presença de uma guia de balizamento, porém, o corrimão não está em conformidade com a norma de acessibilidade, apesar de ter guarda-corpo de ambos os lados.

Existe piso tátil de alerta indicando a mudança de nível, já que há opção de continuação da rampa ou entrada no prédio. Após o piso de alerta, seria interessante o uso de um toten com informações visuais e em Braille, informando a existência de dois caminhos distintos e quais as atividades estão sendo realizadas no pavimento onde se encontra.

O piso tátil antes da escada que dá acesso ao terraço panorâmico está bem posicionado. No entanto, não existem as faixas de sinalização visual na borda do piso dos degraus. A grelha após o piso de alerta, encontra-se dentro da norma, com espaçamentos inferiores a 15 mm, porém devem estar preferencialmente fora do fluxo principal de circulação e no sentido transversal ao movimento.

O capacho na entrada dos pavimentos deve ser evitado, pois dificulta rolamento da cadeira de rodas, mas, quando for utilizado, é necessário que seja instalado no mesmo nível do piso. 

Terraço Panorâmico

O local dispõe de um terraço panorâmico com vista para o oceano, mata e área urbana de João Pessoa. Na intenção de proporcionar essa visão para todas as pessoas, o terraço possui algums locais elevados exclusivos para pessoas com deficiência, onde o cadeirante sobe através de uma rampa para o nível maior. Não tivemos a oportunidade de saber se essa elevação é suficientemente alta para a visualização do cadeirante.

Sanitário acessível

Podemos afirmar que os banheiros do local são dos mais acessíveis que já vimos. Tiveram cuidado em seguir a norma e promover a acessibilidade, mas encontramos alguns problemas. As barras próximas a bacia sanitária e ao lavatório estariam instaladas corretamente se não fosse a instalação da barra na parede do fundo: a norma fala que deve ter distância mínima entre a face inferior da barra e a tampa da caixa acoplada de 0,15m. As barras de apoio são fundamentais nos banheiros para ajudar no apoio das pessoas com mobilidade reduzida e também para auxiliar a transferência do cadeirante para a bacia sanitária.

A porta do sanitário não possui puxador horizontal externo ou interno, apenas um trinco que dificulta a utilização de quem não possui destreza nas mãos. Destacamos a forma como inclinação do espelho (que facilita a visualização por pessoas baixas ou em cadeira de rodas) para mostrar como é fácil deixá-lo assim.

Elevador

Os botões de chamada externos e  internos dos elevadores que dão acesso a todos os pavimentos da torre principal são providos de indicações em Braille.

O piso tátil foi instalado corretamente junto às portas dos elevadores: em cor contrastante com a do piso, com largura entre 0,25 m a 0,60 m, afastada de 0,32 m no máximo da alvenaria. Como foi comentado anteriormente, os capachos devem ser embutidos no mesmo nível do piso.

Como a maioria das obras antigas, as de Oscar Niemeyer não “costumavam” ter o cuidado com a acessibilidade, mas percebemos que essa preocupação recente também chegou às suas obras. Com apenas 3 anos de fundação, concluímos que a Estação Ciência foi construída na intenção de seguir exigências normativas e boas práticas fora da norma para promover a acessibilidade e procurar garantir um local confortável e seguro para todas as pessoas desfrutarem com maior autonomia possível. Esperamos ver mais locais assim, mas estaremos de olho em todos.

Confira também outra análise da acessibilidade em um projeto de Oscar Niemeyer no Blog da Thaís Frota – Arquitetura Acessível

Até o próximo 😉

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8 respostas em “Acessibilidade em: Estação Cabo Branco – Ciência, cultura e artes

  1. Adorei o post! Parabéns pela análise!
    Interessante ver como o escritório do Niemeyer adotou um pouco à acessibilidad,e pena que não entendeu completamente ainda.
    Me deu medo aquela área elevada para observação no terraço panoramico. Me parece meio estranho sair daquilo… volta de ré? Que medo, hein?

    bjos!

    • Obrigado, Elisa!!! Pois é, parece que andam atentos na acessibilidade agora. Sua observação foi muito relevante, pelo visto não pensaram muito esse “detalhe”. O ideal seria adequar, mas enquanto isso sugerimos que os cadeirantes o utilizem sempre acompanhados, e a autonomia fica comprometida.
      Beijos

  2. Primeiramente, parabenizo-os pelo excelente blog!

    Estive pensando se essa faixa gramada no calçamento, rente ao alinhamento do lote, não esteja fazendo o papel de guia de balizamento para as pessoas que fazem uso da bengala longa. Estou observando nas cartilhas de acessibilidade em calçadas que essa prática é comum. Adoraria saber o que as pessoas que se orientam pelas guias de balizamento acham desse “modelo” de calçamento: faixa gramada rente às edificações. Será que é funcional?

    Quanto a rampa sobre o passeio público, particularmente, discordo dos 80cm (mínimo admissível) entre o alinhamento do lote e o início da rampa que está na norma técnica NBR9050-04. Observei e vivenciei (com uma cadeira de rodas) esta solução nas calçadas de São Caetano do Sul-SP e a mesma mostrou-se inadequada, pois prejudica o livre transito de pedestres. A rampa em si torna-se um obstáculo.

    Observei na imagem da rampa da calçada que no canto esquerdo há uma “lombadinha”no passeio. É isso mesmo?

    A solução para o “terraço panorâmico” também me deixou, digamos assim, com um ponto de interrogação na testa! Larissa pelo que notei na imagem, a solução (talvez uma adaptação) parece ser um tronco de pirâmide (imaginem uma pirâmide seccionada próxima a sua base) onde a pessoa subirá com a cadeira de rodas em um dos lados (trapézio) desse elemento, que por sua vez é íngreme e não há corrimãos. Noto que a dimensão da base superior, onde ficará a cadeira não permite que a pessoa faça o giro (pode ser impressão). Vocês sabem qual é a dimensão da base superior?

    Abraços fraternos.

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